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Diário de Sintra

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Diário de Sintra. Paula Gaitán. Brasil. 90min. 2007.

Diário de Sintra

Por Rodrigo de Oliveira

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Diário de Sintra é um filme em primeira pessoa em que esta nunca se declara diretamente mas está tão presente e tão palpável em cada imagem, em cada opção de corte, em cada encenação proposital e cada registro casual que é preciso repensar o uso de expressões como “filme íntimo” ou “filme pessoal” depois dele. Há que se repensar também o que é que se chama de “documentário poético” no cinema brasileiro contemporâneo, esta matéria tão recente e já tão cheia de vícios, de manuais-de-utilização, de cardápios de imagens bonitas. Paula Gaitán utiliza um repertório visual recorrente neste tipo de cinema: vemos a mistura de imagens captadas em digital cristalino com registros da mesma cena em película 16mm bastante granulada, uma série de imagens da natureza em suas diversas manifestações, do pôr-do-sol e do quebrar de ondas numa praia ao vôo de um pássaro em contraluz e câmera lenta. Está tudo lá, mas o sentido é maior, mais amplo.

“Estar” não significa criar alusões, simbolismos, metaforizar através dessa beleza de almanaque a estadia de Paula, seu marido Glauber Rocha e seus filhos pequenos na cidade portuguesa de Sintra, nos últimos anos de vida do cineasta. Estar é uma manifestação dapresença física, disponível aos sentidos básicos do espectador e da diretora, sem nenhuma obrigação de transcendência (ainda que nela fatalmente cheguemos). Talvez por isso Diário de Sintra seja o grande filme brasileiro dos últimos tempos a filmar a perda e a dor da morte, da ausência: porque ela não é emulada, é efetivamente filmada, não é rememorada, mas efetivamente vivida. O exercício de Paula Gaitán não é o da autópsia, nem tampouco o da ressurreição. Voltar a um lugar do passado, à memória do marido morto, do amor interrompido pela morte, é um trabalho, esforço visível aos nossos olhos. É tornar presente a ausência. Fazer de Glauber o que a retórica inflamada de seus defensores menos articulados vive repetindo pelos cadernos culturais e debates de superficialidades, mas que nunca havia sido levado a cabo com tanta firmeza de princípios: em Diário de Sintra, Paula Gaitán nos prova, por meio de todos os artifícios possíveis, que Glauber era verdadeiramente uma força da natureza.

A operação é muito simples. Temos um punhado de fotos de Glauber, registros íntimos dos tempos em que viveu em Portugal, e algumas outras fotos mais antigas, de Glauber moço, sem a barba dos últimos dias, com o rosto menos marcado pelo peso de sua própria história. Numa seqüência inicial, veremos estas fotos espalhadas pelo chão de um terreno vazio, a céu aberto. Entra uma menina em quadro, recolhendo foto por foto, e então as pendura numa árvore seca logo atrás, como se folhas desta fossem. Não é mais, nem é menos, mas exatamente isto: Glauber disperso, fragmentado, e então reagrupado em torno de uma energia natural, uma árvore. O recurso será repetido em diversas locações diferentes, com variações: uma vez as fotos comporão o cenário de uma colina cheia de enormes pedras e imersa em neblina, outra vez será enterrada sob a areia do mar e, num plano fixo e deslumbrante, veremos a correnteza da água ir varrendo aos poucos a areia até que os olhos de Glauber se revelem, e então o sorriso, e a foto inteira se mostre ali, marítima, oceânica.

De forma mais direta e ainda mais reveladora da disposição de Paula Gaitán em entregar-se tão intimamente a este trabalho de “re-naturalização” da figura de Glauber, o filme entregará estas mesmas fotos a diversos moradores de Sintra, velhinhos e velhinhas que viviam na cidade quando o cineasta e a família estavam por lá, e pedirá para que estas pessoas tentem reconhecer, recordar quem era aquela pessoa das fotos, sem avisar-lhes nada. Uma senhorinha diz: “Não o reconheço, mas tenho certeza que é daqui”. Outra tem dúvidas de onde lembra do moço das fotos, mas aponta uma vila mais ao norte, fora do quadro, e diz que talvez ele seja de lá. Uma terceira, percebendo pela postura nas fotos um artista de alguma espécie, afirma ser Glauber um ator português, de cujo nome não se recorda, mas que estava ótimo em determinada novela exibida recentemente. Um dispositivo simples e que, no entanto, dá a dimensão justa daquilo que Sintra parece ter significado para Glauber e Paula: um lugar a se adotar como seu, com todo o peso de ser o último lugar onde se estará junto um do outro. “Sintra is a beautiful place to die”, é o que ouvimos o cineasta dizer num registro sonoro em off.

Percebido como parte daquela geografia, como habitante natural daquele espaço, acolhido na memória de quem nunca o conheceu como parte daquela história, Diário de Sintra então nos levará ao extremo oposto. Desta vez as mesmas fotos que acompanham todo o filme serão entregues a pessoas que de fato conviveram com Glauber e a família durante o tempo em Portugal. “Cá está, esta é uma imagem de exílio, uma imagem de refúgio, uma imagem doída”, diz um dos amigos do casal, e assim nossa assimilação daquela figura como um dos componentes da natureza de Sintra será desafiada por este não-lugar do exílio, do lugar escolhido em detrimento de um outro que não mais se podia habitar. De fato, o queDiário de Sintra propõe constantemente é um reposicionamento sentimental de Glauber na ordem do mundo e seu território é de uma vastidão apenas imaginada. Há um uso muito preciso de falas do próprio Glauber, muitas delas falando diretamente de sua proximidade da morte, da doença, dos dias de sofrimento, e por vezes ouvimos a mesma frase ser dita em português e então repetida em inglês e espanhol, ou um discurso que se inicia em italiano e termina em francês. E, de todo modo, mesmo que habilitado para a comunicação em diversas línguas, mesmo que arduamente re-introduzido no ciclo natural daquele espaço, rememorado por aqueles que o conheceram e também por aqueles que dele nunca ouviram falar, há um signo inescapável ali.

Colado a Glauber de maneira tão íntima, Diário de Sintranão poderia apenas narrar sua morte. Em duas seqüências estarrecedoras, veremos primeiro o filme “respirar” junto do cineasta seu último fôlego, onde cada escurecimento da imagem é sucedido por uma nova cena, também ofegante, também fugidia, também apagada por um novo escurecimento. Então, de um tremor sonoro, surge uma imagem de Glauber filmada em super-8, deitado na rede, talvez o registro mais triste e pesaroso que se tenha de seus últimos dias: Glauber exausto, fatigado, com a expressão de quem está partindo. Para onde ir depois de um impacto destes? Diário de Sintra vai se apagando junto a Glauber, até desaparecer por completo.

Um filme que abdica o tempo inteiro dos rodeios pomposos, da afetação “profunda” e cheia de significados submersos, baseado na superfície de uma dúzia de fotografias. É só aí que Diário de Sintra pode existir, na superfície aflorada das coisas. Um filme em que se declara explicitamente a posição afetiva de onde se fala (ouvimos versos como “uma viúva se parece com as árvores, um objeto-sombra”). Um filme desses não poderia tomar outra atitude diante da morte. O que não quer dizer que não seja num céu incrivelmente azul e limpo, num dia claro de sol, que o último plano do filme queira repousar. O sono dos justos.

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